| 1 - INTRODUÇÃO:
A prática da obstetrícia (atenção de casais grávidos), requer
a participação da ciência (para realizar diagnóstico correto)
e da arte (para realizar tratamento adequado). Por este
motivo é pertinente a observação do famoso historiador Auguste
Comte, que diz: "Não se deve praticar uma ciência a menos
que se conheça sua historia".
Tratar de conhecer as formas do nascer através da História,
permite-nos percorrer caminhos com grandes avanços e alguns
retrocessos, quando consideramos resultados de estatísticas
vitais (hoje morrem significativamente menos mulheres e
recém-nascidos que na Antigüidade); porém existem na atualidade
importantes diferenças regionais (culturais) em países com
economias menos favorecidas, onde ainda persistem retrocessos
não solucionados. Segundo informação de Chuck Raasch (analista
político do GNS/USA Today). Uma mulher na Nigéria possui
a probabilidade 600 vezes maior de morrer durante o parto
do que outra na Suécia.
Na América Latina, países com menos poder econômico como
Cuba apresentam três vezes e meio (3,5) menos mortes maternas
e três vezes (3,0) menos mortes perinatais que no Brasil,
que tem maior poder econômico (Dados da OMS, publicados
na revista Tema, fevereiro 1999). Avanços tecnológicos levam
a melhorar o conhecimento de processos fisiológicos, assim
como a aprimorar diagnóstico e tratamento corretos dos desvios
da normalidade. A obstetrícia de hoje tem maior chance do
que o resultado do nascimento seja mais seguro do que na
Antigüidade.
Existem evidências de que o abuso ou mau uso da tecnologia
pode ser motivo de resultados perinatais menos favorecidos.
Por exemplo, o controle monitorizado de um parto de baixo
risco (sem patologias) aumenta significativamente a instrumentalização
desnecessária (uso de drogas, fórceps, cesáreas, entre outros)
desse nascimento. O abuso de cesáreas desnecessárias (sem
indicação médica ou por diagnóstico errado) aumenta as complicações
intra e pós-operatórias, além de ter maior complicação em
partos posteriores. Aumenta a incidência de morte materna,
assim como o risco de resultado perinatal inadequado (em
Simpósio de Cesáreas, Campinas, 2002).
Estas e outras observações similares acontecidas durante
a evolução histórica dos acontecimentos mais relevantes
do nascimento, estimularam-nos a realizar levantamento dos
fatos, avanços e retrocessos acontecidos através do tempo,
apresentados de forma resumida e amadora para que sejam
imitados quando a evidência mostra benefícios, e eliminados
prontamente quando não são dignos de imitar.
Desta forma, pretendemos magnificar o beneficio de condutas
adequadas para nossas futuras mães e recém-nascidos. Quem
sabe seja esta uma das maneiras de melhorar o desempenho
do nascimento, para diminuir a violência existente em nossa
sociedade, resgatando as formas de nascer de sociedades
antigas e menos violentas (A Anistia Internacional, através
da revista ÉPOCA de outubro/2003, traz a informação de que
uma pessoa morre no mundo a cada minuto, vítima da violência
armada).
Os fatos aqui apresentados fazem parte do curso de extensão
que o Grupo de Parto Alternativo da Unicamp oferece em sistema
on line a pessoas ou grupos da área da saúde. Para maiores
informações, consultar o site:www.extecamp.unicamp.br/parto_alternativo
Para uma apresentação ordenada, dividimos o tema seguindo
a clássica separação entre Pré-história e História. Esta
última em Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea.
Como era a forma de nascer em cada um desses períodos?.
2.- Pré-Historia
Como é de se supor, existem poucos documentos que certificam
a forma de nascer nos períodos Paleolítico Inferior e Superior,
Neolítico e Idade dos Metais. As hipóteses sobre os primeiros
nascimentos, descritas pela Bíblia e outros, não serão comentadas,
deixando ao leitor a liberdade de procurar suas próprias
respostas desses primórdios. Limitaremo-nos a apresentar
dados de trabalhos publicados de achados antropológicos,
que nos ajudam a responder, ainda que em parte, a pergunta
acima realizada (Muitos dos dados apresentados foram obtidos
de José Jobson de A. Arruda; História Antiga e Medieval
. Editora Ática - 1990 e de Victor Hugo de Melo; Evolução
Histórica da Obstetrícia. Tese de Mestrado Dep. Ginec. Obst.
FCM UFMG - 1983).
2.1.- Paleolítico Inferior:
(Antiga idade da pedra 500.000 A 30.000 aC);
Era do Gelo. Aparece
o homus erectus, Neanderthal, de hábitos nômades, com habitação
em cavernas, alimentação eminentemente herbívora. Descoberta
do fogo. Esboço de sistema social. Acasalamento típico.
Matriarcado (as mulheres pertenciam à comunidade, desconhecendo
o verdadeiro pai das crianças). Por este motivo o nascimento
era isolado e sem nenhum tipo de ajuda. Similar ao que acontece
na atualidade em algumas tribos da África e Amazonas, no
Brasil.

Índia da
África tendoo parto sem ajuda. Segundo
Liselotte Kuntner - 1983
|
A mesma índia
vista de costas
com o recém nascido a seus pés.
Segundo Liselotte Kuntner -1983
|
|
2.2.- Paleolítico Superior: (Quarta glaciação, 30.000
a 18.000 aC). Aparece o homus sapiens, Cromagnon, de hábitos
sedentários, atirador de dardos, alimentação carnívora.
Sistema social mais complexo. Inicio da linguagem, da arte
(cavernas de Altamira). Acasalamento. Patriarcado (as mulheres
começam a ter parceiro fixo), ritos funerários e magia.
O parto começa a ser assistido por magos, familiares ou
parteiras. Aparece a couvade (descanso e presentes para
o pai).
2.3.- Neolítico: (Idade da Pedra - 18.000 a 5.000
aC); Diversos grupos dispersos na Turquia e Irá. Os grandes
animais recuam. Domesticação de animais pequenos. Agricultura.
Teares simples. Barcos. Vida urbana. Os nascimentos começaram
a ser atendidos por parteira ou pelo marido
Peça arqueológica
mais antiga tendo o parto em posição de cócoras.
Encontrada em escavações em Catal Hüyük na Turkia
Central.
De 6.500 a 5.700 aC. Museu arqueológico de Ankara |
2.4.- Idade dos Metais: (5.000 a 4.000 aC); Grupos no
Egito e Grécia. Trabalhos com cobre, estanho, bronze e ferro
ao final. Avanços da agricultura, transporte e industria.
Aparece a escrita. Vida Urbana estratificada e Rural. Estado
e Religião como Instituições. Nascimentos atendidos por
parteiras nas cidades e na zona rural pelo marido, que tinha
experiência em atender partos nos animais. Alguns métodos
alternativos para atender partos e facilitar o nascimento
na posição vertical.
3.- HISTÓRIA
3.1.- ANTIGA: (4.000 aC a século V). Como acontecimento
relevante, este período tem as civilizações Oriental e Grega
e termina com a invasão Bárbara e a queda do Império Romano.
Os nascimentos eram realizados por parteiras empíricas com
a parturiente em posição vertical, apoiada em tijolos, ou
mesmo no colo do marido ou de pessoas da comunidade treinadas
para isto (boas de colo), em domicilio.
Mulher na Pérsia
tendo o parto apoiada em três tijolos |
3.2.- MEDIEVAL: (século V a século XV). Como acontecimento
relevante temos o feudalismo na Europa. Este período termina
com a queda de Constantinopla (turcos) e o término da guerra
dos 100 anos (Inglaterra e França). Os nascimentos eram
realizados por parteiras regulamentadas, com a parturiente
em posição vertical e colocada em cadeiras previamente fabricadas
e em domicilio.
Modelos de cadeiras de partos de várias regiões
da Europa e América |
3.3.- MODERNA: (século XV a século XVIII). Como acontecimento
relevante, temos a onda revolucionária na Europa. Este período
termina com a Revolução Francesa para alguns e com o Descobrimento
da América para outros. Os nascimentos eram realizados por
parteiras com instrução e por médicos (sendo que a mulher
atendida por homem perdia cinco virtudes: pudor, pureza,
fidelidade, bom exemplo e espírito de sacrifício). Aparecem
os primeiros livros de obstetrícia. As parturientes sempre
em posição vertical ou de cócoras, apoiadas em bancos, tamboretes
e cadeiras sofisticadas em domicílio.
3.4.- CONTEMPORÁNEA: (século XVIII até nossos dias).
Neste período houve muitos acontecimentos relevantes. As
várias guerras acontecidas, principalmente as mundiais,
permitiram avanços tecnológicos para facilitar a morte do
inimigo. Muitos destes avanços são hoje utilizados pela
medicina. Os nascimentos começam a ser atendidos por médicos
obstetras em Instituições denominadas de Maternidades, para
diminuir as mortes ocorridas no período puerperal.
Cadeira de Bolochi
(Itália) para atender partos com a mulher em posição
horizontal (1871) |
Os partos começaram a ser realizados com a mulher em posição
horizontal, em cadeiras especialmente construídas (posição
de litotomia).
Cadeira de parto
convencional, utilizada na grande maioria
das maternidades, com a mulher em posição horizontal
(Litotomia). |
As parteiras foram oficializadas e atendiam também na zona
rural. Surgem neste período a grande ajuda da anestesia
e, para evitar os efeitos secundários desta, os métodos
psicoprofiláticos. Posteriormente surge a Neonatologia,
para dar atenção médica ao recém-nascido. Estes avanços,
como o descobrimento das transfusões sanguíneas e os antibióticos,
permitiram dar maior seguridade às mulheres e aos seus filhos.
Na década do 50 foram publicados na Inglaterra os primeiros
resultados estatísticos dos casos de alto, médio e baixo
riscos gestacionais, permitindo com isto separar as mulheres
grávidas com maior chance de ter problema na hora do parto.
Simultaneamente nos EEUU surgem as primeiras publicações
questionando a posição horizontal para atender o parto (efeito
da gravedade), confirmadas posteriormente por outros pesquisadores
dentro e fora do país. Na década de 80, inspirado nas observações
de Paciornick de partos nas reservas indígenas de Curitiva
e de Galba Araújo, no Ceará.
Coleção de cadeiras
utilizadas por parteiras no Ceará,
para atender partos em posição vertical. |
Surge em Campinas o Grupo de Parto Alternativo, hoje com
mais de 1.000 partos atendidos em posição de cócoras (vertical).
Método postulado
em Campinas em 1980, para atender partos
em posição de cócoras (Resgate das formas de nascer). |
Em 17 de outubro de 1993 surge a "Carta de Campinas", apoiando
a humanização do nascimento e formando a primeira organização
não governamental do gênero, denominada Rede de Humanização
do Nascimento (REHUNA), com representação atual em varias
cidades do Brasil. Hoje contamos com outras instituições
similares, destacando a recém-formada "Alma Mater" com sede
também em Campinas. Estas Instituições, junto a portarias
do Ministério da Saúde, estão lutando para diminuir o intervencionismo
desnecessário nos casos de gestações de baixo risco (80%
dos casos, segundo dados da OMS), permitindo com isto o
resgate das formas de nascer
Ciclo evolutivo
das formas de nascer desde a pré-história até
nossos dias. Observamos que
após transcorridos mais de 8.000 anos a posição
da mulher está sendo resgatada. |
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